Série A CORRENTE:
(Leia Antes:
Prólogo, Capítulos:
1,
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3,
4,
5,
6,
8,
9,
10,
11,
12,
13)
Bruna dá um passo na direção de Roberto e ele, ofegante, pergunta: – É agora que eu morro?
Salvo pela porta que se abre sem resistência, Roberto respira aliviado, sem a arma de Plínio ameçando-o.
– Finalmente Deus está nos ajudando... – observa Lídia.
Mas Roberto sabe que Deus tem se esquecido de olhar para eles nesses
últimos dias, pois apenas ele consegue ver e ouvir seu amigo Gésser, que
após aparentemente ajudá-lo, olha-o com um sorriso desdentado,
terrivelmente deformado pelo acidente.
– Pode passar, camarada! Cuidado com o degrau. – diz o questionável
ajudante sobrenatural. Roberto hesita, deixando que Plínio tome a
dianteira.
– Plínio, não entre aí! – grita, ao sentir que há algo de errado na intenção da monstruosidade que se tornara Gésser.
Plínio olha para todos os lados do lugar escuro e, apesar da pouca
visibilidade, consegue ver que o ambiente está tomado por materiais de
construção, vergalhões e areia. Do lado esquerdo, uma grande coluna
formada por inúmeros sacos de cimento de 50 quilos. Ao fundo, outra
porta, que Plínio torce para que seja uma saída.
– Por que não? Está tudo normal, ao que me parece. Vamos ver o que encontramos por aqui.
Ele não percebe que o local está em um nível um pouco mais baixo que o
piso do corredor onde está. Despreparado, desaba no o chão como uma
árvore vencida por um machado, oferecendo o seu queixo como para-choque
ao chão de cimento grosso, quebrando dois dentes.
– Plínio! – grita Lídia, ao ver o colega tombar. – Você está bem?
– Fôrra! – esbraveja Plínio, tendo dificuldades de falar com a sua boca sangrando. – Eu quefrei um guente!
Enraivecido, tenta se levantar. Ao olhar para a esquerda, porém,
depara-se com a última coisa que deseja ver: Bruna, de pé, ao lado da
coluna de sacos de cimento empilhada. Seus olhos saltam da escuridão e
gelam a alma do rapaz, que ainda tenta falar algo.
Naquele momento,
sabe que o seu fim é iminente. Ele não é muito religioso, mas sempre
acreditou que a vida não termina. Porém, não sabe o que esperar de sua
nova jornada. Qualquer um poderia pedir a Deus perdão pelo modo que
viveu, ou proferir apenas uma interjeição, mas Plínio escolhe as
palavras que melhor demonstram o seu descontentamento naquela hora:
– Roberto, eu te peg...
O ensaio de imprecação é a última coisa que diz antes do desmoronamento
tomar conta da entrada da sala. Uma grande nuvem de cimento cega Roberto
e Lídia por alguns segundos e o hacker, após se recuperar, afasta a
ex-namorada em choque do local.
– Mas o Plínio... o Plínio...
– Não tem como ele sobreviver àquilo, Líli! – diz Roberto, olhando-a nos olhos.
– Mas se o Plínio está morto, quer dizer que o outro cara que recebeu a
corrente também morreu! Eu sou a próxima! – conclui Lídia, gritando de
desespero, enquanto é abraçada pelo ex namorado.
Roberto, que se encontrava desorientado até o presente momento, vê o que
de fato precisa fazer. Afinal, a morte de todos os envolvidos na
corrente é sua responsabilidade. Ele sabe que não poderia falhar com
Lídia.
– Não, Líli. Você não vai morrer. Eu não vou permitir.
– Olha como você está, Roberto! Mal se aguenta em pé, todo fodido e
ainda me coloca nisso tudo! Eu vou morrer por sua culpa, seu merda! SUA
CULPA!
Roberto engole a seco o que ia falar.
– Você tem razão, Lídia. É tudo culpa minha. Mas eu ainda estou aqui, não estou? Eu não vou te deixar, Lídia. Eu juro!
Energicamente, Roberto a puxa pelo braço e volta pelo corredor, dessa
vez tomando a mesma direção que Bruna tomara. À medida que adentram em
meio à penumbra, o ar fica mais gelado. Lídia, aflita, abraça Roberto,
tentando acreditar na possibilidade de seu ex-namorado salvá-la do
terrível fim que ele mesmo pôs na vida dela.
De repente, Roberto olha para o chão mal iluminado e percebe que está
coberto do que aparenta ser folhas. Ao pisar, sente uma textura de
tecido.
– Estranho...
– O-o quê? Do que você está falando?
O rapaz dá mais uns passos e percebe que a quantidade de folhas aumenta drasticamente, chegando a envolver os seus pés.
– Essa sujeira no chão. O que será? – indaga, abaixando-se para ver mais de perto.
– Roberto, assim você me mata de susto. O lugar não está em reforma? Isso com certeza é coisa dos pedreiros!
Ele se abaixa e toca nas folhas e amassa um punhado entre os dedos, na
esperança de saber em que está pisando. De repente, sente sua mão
queimar.
– Ai, desgraça! – grita Roberto, sacudindo a mão. Parece que apagara um
cigarro em sua palma, pois as folhas que estavam em suas mãos chegam ao
chão em cinzas.
– O que foi?
– Lídia, corre!
– O quê?!
– Mandei correr, Lídia!
– Mas...
– Isso não tem nada a ver com os pedreiros! – grita Roberto, ainda agachado olhando para Lídia. – São penas! Penas de pombos!
Lídia não pode dizer que entende a declaração de Roberto, mas só o fato
do chão estar coberto de penas era o bastante para não ignorá-lo.
Seguindo esse raciocínio, corre desesperadamente pelo caminho de onde
tinham vindo.
Roberto a segue numa velocidade menor, devido ao ferimento no abdômen.
Diminui o passo e percebe o cheiro horrendo que se assemelha a cabelo
queimado começando a tomar todo o lugar. Fumaça sai das penas, que aos
poucos vão ficando em brasa até pegarem fogo. Ao ver que não conseguirá
sair dali, Roberto espalha com os pés as penas mais próximas, ficando
ilhado, cercado por um tapete de chamas que cobre todo o corredor.
Lídia felizmente consegue sair, voltando para onde o corpo de Ingrid
está. Ela imaginava encontrar ali policiais, pois apesar da sua péssima
experiência, a polícia ainda é a sua última esperança.
– Cadê os policiais? – indaga Lídia para o vazio do corredor silencioso.
– Cadê a ajuda?
Vai até a porta na intenção de abri-la, mas não consegue.
– Tem alguém aí? – grita, batendo na porta. – Estou presa aqui! Alguém pode me ajudar?
Ela nota algo diferente no ar. Ofegante, consegue ver o vapor saindo de
suas narinas e boca, o queixo começa a tremer, ela se encolhe,
esfregando os braços. Aquele frio não é normal. “É a minha vez, vou
morrer agora”, é o que pensa antes de chorar.
Tenta manter-se em silêncio, chorando com as mãos na boca, na esperança
da corrente não se concretizar. Na verdade, ainda tem a esperança de que
tudo aquilo não passe de uma peça de sua mente, influenciada por todos
os acontecimentos aterradores que testemunhou nas últimas horas.
Sem conseguir conter as lágrimas, Lídia retoma as batidas contra a porta, na esperança de ser socorrida.
– Ei! Alguém pode me ajudar, por favor?
E finalmente, ela ouve algo. Um sussurro apenas, difícil de identificar.
Parece uma voz suave que vem de longe, pousando em seu ouvido como um
sopro.
– A-alguém pode m-me ajudar? – indaga novamente Lídia, agora amedrontada
demais para ter confiança. A voz sai tão fraca que nem ela reconhece.
Segundos depois, escuta um pequeno sussurro ao pé do ouvido. É muito
familiar, mas Lídia prefere não acreditar. A dona daquela voz estava
morta e seu cadáver está a poucos metros de seus pés.
– Ninguém pode te ajudar – diz a voz à Lídia, desta vez claramente. Se
Roberto estivesse ali, talvez conseguisse reunir forças para avisá-la
que Ingrid está de pé, um buraco de bala em sua cabeça, falando ao
ouvido de Lídia, deliciando-se com o medo. – Você vai se juntar a nós,
menina! – continua Ingrid, em tom de deboche.
– Q-quem está aí? Bruna? É você?
– Você sabe que não, Lídia – Ingrid, a testa minando sangue, rodeia a
amedrontada garota. – Como a Bruna poderia estar aqui, se ela está dando
o que você ACHA que o Roberto merece? Neste exato momento, ele deve
estar arrependido de ter tentado te ajudar!
– C-como assim, o que eu acho que ele merece? – pergunta Lídia, com medo do tom acusador de Ingrid.
– Ora, Líli! Primeiro você achou que ele era um assassino, depois pensou
que tinha nos amaldiçoado por querer... Quem iria acreditar que a
corrente era verdadeira? Não, não, tenho uma melhor: quem iria acreditar
que você está conversando com uma japinha sangrando, né? Que estômago,
hein, querida?
Lídia se encolhe cada vez mais, se apertando contra a porta.
– Você devia ver a sua cara, Líli! Eu queria ter uma foto para colocar num blog!
– Eu sinto muito, Beto! – diz Lídia, em lágrimas.
– Ei! Calma, garota, não se preocupe com ele... – avança Ingrid, com as
mãos ensanguentadas em torno do pescoço de Lídia, apertando até ela
perder a consciência. – ... você já tem problemas demais!
Lídia cai inconsciente. Ingrid se ajoelha diante da moça e olha para a
porta recém-aberta do lado esquerdo do corredor. Um homem com o rosto
desfigurado por unhas adentra o lugar, o olho direito vazado e o sangue
vertendo escorre pelas valas feitas no rosto. Ingrid não tem dúvidas
sobre o visitante.
– Hmm... Você deve ser o Jeremias, não? – diz Ingrid, o sorriso manchado pelo sangue que brota de sua testa.
Roberto ainda está ilhado no espaço que abriu entre as penas dos pombos
antes que todas pegassem fogo. Isso, porém, não o amedronta mais do que o
que vê despontando no fim do corredor.
Dezenas de pombos voam em sua direção. Em seguida, aglomeram-se a dois
passos de distância, pegando fogo e tornando se uma única criatura, com a
sua pele deformada pelo fogo e roupas encardidas pela fuligem. Por mais
vezes que Roberto tenha presenciado o fenômeno, a vontade de gritar
histericamente não muda.
– Finalmente! – A voz da criatura é gutural, mas não tem maldade no
olhar. Séria, mas apesar da aparência grotesca, não era ameaçadora.
Roberto só pensa em sair dali, só que suas pernas não lhe obedecem. E
neste caso, elas estão certas. O fogo está na altura de seus joelhos e
com certeza não conseguiria escapar ileso daquele lugar.
Bruna dá um passo na direção de Roberto e ele, ofegante, pergunta:
– É agora que eu morro?
Ela o olha, em dúvida. Estende a mão queimada próximo ao rosto dele,
que, por reflexo, inclina-se levemente para trás, chegando perto do
fogo. À medida que o monstro disforme se aproxima, sua pele se regenera,
deixando apenas algumas queimaduras superficiais e um rosto contorcido
pela dor.
– Morrer? Não, Roberto. É agora que você precisa tomar uma decisão.
Ela fala claramente, sem a dificuldade apresentada do último encontro, pouco antes das chamas consumirem-na.
– Q-que decisão? O que eu preciso fazer?
– Você precisa decidir se quer dar um fim nisso tudo.
Bruna cambaleia, com dificuldades para se manter de pé.
– Mas é claro que quero acabar com isso!
– Mesmo que isso custe a vida da sua amada?
Roberto prefere não entender a pergunta de Bruna, que está cada vez mais fraca.
– Só quero descansar, Roberto. Se a Lídia passar a corrente para frente,
tudo isso continua. Não sei se você percebeu, mas as pessoas que morrem
por conta dessa maldição também ficam presas à mensagem, seguindo os
envolvidos até que a corrente seja quebrada totalmente.
– Mas eu não posso matar a Lídia!
– Você não vai matá-la, querido... Elas vão!
– Elas?
– Somos parte da mesma pessoa, querido... Mas não fui eu que arquitetei
tudo isso... – conta Bruna, transpirando algo parecido com suor, mas
cheirando a gasolina.
– Quem foi então?
Roberto se assusta com o grito da magra Bruna, que vê seu corpo se incendiando novamente.
– Bruna? O que está acontecendo?
– Bruna se foi novamente, Roberto... Só ficou a mágoa! – responde a
menina, que sai de trás do ser queimado e de roupas encardidas.
Roberto nota agora que todo o mal da criatura tostada se concentra também no olhar da criança, e estremece.
– Por que está fazendo isso, desgraçada? – grita Roberto enquanto tenta
afastar-se das duas. O chão ainda em brasas não lhe dá muito espaço para
isso. – Por que não morre de vez e deixa a gente em paz?
– Porque fui a primeira a morrer, Roberto! Morri quando não pude me
mexer, quando meu pai perdeu o emprego e minha mãe sumiu por não querer
viver com a filha inválida! E a doença não me deixava nem usar a
internet, meu único momento de fuga. Minha vontade de ir era tanta que
parte de mim se desvencilhou do corpo, deixando apenas o suficiente para
respirar.
As brasas do corredor transformam-se em cinzas, mostrando alguns pombos
mortos, tostados. A menina parece frágil, enquanto narra sua vida para
Roberto, o homem que tanto atormentou esses últimos dias. Ele tem a
chance de fugir, mas sente vontade de ficar. Será que acredita estar
próximo de descobrir algo importante para sua sobrevivência? Ou é
simplesmente o cansaço que o toma e ele decide que pode escutar as
motivações daquele pequeno diabo antes de morrer?
– Foi aí que percebi que nunca poderia ir embora, porque parte de mim
queria enfrentar a doença e vencer, mesmo com todas as adversidades.
Resultado? Fiquei presa, perto de um corpo moribundo derivado de um fio
de esperança de recuperação. Passei anos assim. Passei a assombrar meu
pai e minar a força de vontade do que sobrou de mim naquele corpo, que
passei de chamar de “irmãzona”, até surtar.
– O que você fez com seu pai, Bruna? – Roberto levanta o tom de voz, já não se importando as consequências daquele ato.
– Meu trabalho foi árduo, mas ele finalmente cedeu. Juntou as coisas que
mais gostava e se trancou no quarto com a minha irmãzona. Tudo estava
lá: o computador, seus livros, seus discos, miniaturas de carros e seus
pombos. Todos eles. Depois, foi só encharcar tudo com gasolina e atear
fogo.
– Mas se tudo foi tomado pelo fogo, o que vocês continuam fazendo aqui?
A menina sorri, ainda mais diabólica. A sua contraparte queimada a
imita, enrugando a prosta queimada de seu rosto, que ameaça cair. Os
dois pares de olhos fixos em Roberto o deixam à beira de um ataque. O
ódio torna-se quase sólido, tomando as narinas e a faringe, seu gosto
amargo causando náusea em Roberto.
– Minha irmãzona pediu ajuda ao meu pai e escreveu uma carta. Mandou
para sete pessoas na internet, pouco antes de morrer, pedindo para não
ser esquecida. Ela pediu tão emocionada que acabou deixando parte de si
na mensagem. Mas ela também deixou uma mensagem para o meu pai. Assim
que ela enviasse a carta dela, ele teria que matá-la, pois assim, me
mataria.
– Mas como é você na corrente, e não ela? – indaga Roberto, tentando prolongar seus últimos
momentos ao máximo.
– Meu pai é um fraco. Eu tomei o controle da irmãzona por um tempo e
mandei a MINHA mensagem. A que você e centenas de pessoas repassaram!
Roberto tosse, tentando colocar aquele bolo de sensações ruins para fora, enquanto busca se afastar das criaturas.
– Mas isso é impossível! Sua história era para ser de esperança, Bruna! Por que virou... Isso? Esse monte de mortes sem motivo?
Roberto é surpreendido com as mãos do ser bestial segurando-o pelo
pescoço, arremessando-o contra a parede. Com a pancada, o ar dos pulmões
se esvai, deixando-o ainda mais debilitado.
– Eu só queria ser livre, Roberto! Nem que para isso eu tivesse que
acabar com os sonhos da minha irmãzona! Eu não vou viver presa a nada!
– Mas... continua... vivendo! – diz Roberto, num último fôlego.
– O quê? – pergunta Bruna, desconfiada. A outra afrouxa um pouco as mãos.
– Primeiro, quando você adoeceu, vivia presa à cama. Depois, quando
tentou se separar de você mesma, ficou presa à esperança de uma parte
bondosa sua... e agora, você está presa a uma corrente! E vai viver
assim, como a escrava que sempre foi, porque existem muitos idiotas como
eu que passaram a corrente para frente!
Apesar de todo o argumento de Roberto, Bruna volta a mostrar seu sorriso diabólico.
– Beto, meu querido... Você acredita que muitas pessoas não passam a
corrente para frente, mesmo quando eu digo que a vida delas corre
perigo? Vou te contar um segredinho...
O demônio arrasta o hacker na parede abaixo, até ficar da altura da
pequena Bruna. Ela se aproxima de sua orelha e despeja as palavras que
gelam seus ossos.
– A conta de 30 mil que você roubou era para mim! Para ajudar meu pai a
cuidar da irmãzona. Demorei a descobrir você, mas consegui chegar ao seu
computador! E você era o último elo! Se não tivesse passado adiante,
certamente morreria, mas a minha irmãzona poderia descansar em paz e
sabe-se lá o que seria de mim. Mas você passou adiante. Achei que
começariam então a espalhar novamente a minha corrente, mas seus amigos
eram uns merdas! Até mesmo o Jeremias, que adora passar histórias
idiotas para qualquer um, resolveu bancar o difícil. Aliás, ele está,
agora, providenciando para que a sua namoradinha passe a corrente para
mais sete pessoas... e começar isso tudo de novo!
Bruna ri, assistindo a sua versão demoníaca jogar o debilitado hacker contra a porta da saída.
Roberto se levanta tão rápido quanto suas limitações o permitem. Agora
tudo começar a fazer sentido – tanto quanto maldições e fantasmas podem
fazer. Olha para a porta quebrada e percebe que a pequena praga continua
lá, ao lado do maldito monstro. De repente, elas somem, sem persegui-lo
ou ameaçá lo. Talvez porque saibam o que Roberto tentará fazer:
convencer a Lídia a não passar a corrente para frente. As explicações,
ele pode deixar para depois.